Vander Piaia
Recorde na bolsa, mérito de quem?
Reprodução FreepikFechando janeiro, é possível avaliar com mais segurança o ano que passou e as expectativas para o ano presente. Nesse início de ano, o Brasil foi beneficiado pela quantidade anormal de dólares que entraram no país na forma de investimento especulativo via bolsa de valores. O índice iniciou o ano em torno de 162500 pontos, começou a reagir acima da média no meio do mês, quando chegou a 165.500. Não parou de subir, no dia 21 já estava em quase 175 mil pontos, depois de ter batido vários recordes, chegando aos impressionantes 185 mil em 28 de janeiro.
Como efeito direto da entrada dessa massa de dinheiro, o dólar só tinha um caminhão: cair, e foi o que aconteceu. A moeda americana começou o ano valendo R$ 5,56 a medida em que mais grana entrava, o gráfico foi desenhando uma linha descendente. Para chegar em R$ 6200 em 30 de janeiro.
Esse boom vai continuar? Dependerá das ações do presidente Trump, que para muitos é um fator de incerteza para a economia americana. Mesmo assim, haverá um limite, que é quando o mercado precificar esses movimentos.
Já faz uma década que o Brasil perdeu o selo de grau de investimento, que era uma espécie de aval de que o país era um porto seguro para investimento. Portanto, não é porque acham que a gestão federal é confiável que esteja ocorrendo fluxo positivo de dólares. Esses investidores aportam dinheiro , que pode ser retirado de um dia para outro. O que os atrai é a alta taxa de juros, combinada com as incertezas recentes da economia mundial.
O cálculo é simples. O IPCA de 2025 ficou em 4,26%. Enquanto a taxa Selic está em 15%. Sob o ponto de vista macroeconômico, isso é um absurdo, um cenário ideal para reduzir investimento e aumentar a especulação. Tudo isso ocorre devido a falhas estruturais na economia brasileira, que fica dependente exclusivamente da taxa de juros para evitar a inflação. Se até para os investidores nativos aplicar no mercado é muito mais interessante, pois o juros reais anuais (juros nominais menos inflação) significaram, em 2025, 10% de margem líquida para os americanos, cuja inflação é menor, a margem de rentabilidade para se especular no Brasil é realmente tentadora.
A entrada de dólares no Brasil depois de 20 de janeiro já havia ultrapassado 50% de todo volume ingressado no ano anterior. Embora o esforço do governo em capturar para si os recordes da bolsa, o fato se deve mais as traquinagens do presidente americano do que algum motivo especial da economia doméstica. Mesmo assim, que venham os dólares gringos, isso alivia o valor do dólar e traz esperanças de um ano melhor!

- Vander Piaia é comentarista econômico e professor da Unioeste








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