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Cascavel,07/08/2026

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Opinião

A Doutrina Donroe chega ao Brasil

Como a pressão de Trump sobre a eleição brasileira testa os limites entre incentivo e ingerência


A Doutrina Donroe chega ao Brasil

Como a pressão de Trump sobre a eleição brasileira testa os limites entre incentivo e ingerência

Por Creomar de Souza*

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Foto: Saul Loeb / AFP

A ordem internacional erguida em 1945 está em franca degradação, e o agente dessa degradação é também seu arquiteto histórico: os Estados Unidos da América. Para regiões periféricas do sistema, como a América Latina, essa condição produz uma nova forma de atenção, mais intrusiva do que qualquer coisa vista desde o fim da Guerra Fria. Essa guinada foi batizada pela imprensa americana de “Doutrina Donroe”, fusão dos nomes de Donald Trump com James Monroe, autor da doutrina de 1823 que se resumia no axioma “a América para os americanos”.

Em termos práticos, para o Brasil, habituado durante a Nova República a operar fora do radar estratégico de Washington, o fato mais impactante é constatar que sua eleição presidencial deixou de ser assunto doméstico e passou a cumprir um papel na tentativa trumpista de reinvenção das regras do jogo internacional. Do ponto de vista doméstico, a Casa Branca tem no centro de suas preocupações a contenção da imigração irregular e o combate ao crime organizado transnacional. O pano de fundo desses movimentos, porém, é a transformação do hemisfério ocidental em zona de influência inconteste dos EUA.

Ciente desses objetivos, o operador da estratégia — o secretário de Estado, Marco Rubio — repete que os governos da região devem integrar um grande esforço de proteção liderado por Washington. E a decorrência prática dessa percepção é explícita: aproximar-se de Washington rende benesses de diversos tipos. O caso mais explícito é a Argentina: o Tesouro americano fechou com o governo Milei um swap cambial de US$ 20 bilhões, com sinalização de um pacote que poderia chegar a US$ 40 bilhões.

Mais importante do que a efetivação plena da operação é a simbologia do ato. Afinal, o secretário Scott Bessent deixou claro que o apoio estava atrelado ao desempenho eleitoral dos aliados de Milei nas eleições legislativas de outubro de 2025. Na mesma linha, o próprio presidente Trump chegou a declarar, após a eleição, que Milei teve “muita ajuda” dos Estados Unidos para vencer. Reforça-se, assim, uma dinâmica de condicionalidade entre aproximação política e acesso a recursos financeiros — dinâmica que se torna mais explícita à medida que esvazia canais de crédito multilateral em favor de arranjos de caráter quase pessoal.

Porém, nem só de empréstimos e promessas se faz a nova diplomacia dos Estados Unidos para a América Latina. Nos casos do Chile e da Colômbia, países em situação fiscal e econômica bastante distinta da Argentina, encontram-se outros vetores de aproximação. As vitórias de José Antonio Kast e Abelardo de la Espriella foram celebradas pela Casa Branca e por outras lideranças regionais; o próprio Milei chamou o resultado chileno de avanço da liberdade na região.

Aqui merece destaque um paradoxo: uma direita que se apresenta como patriota ao mesmo tempo em que se assume como tributária do trumpismo enquanto força política.

Essa situação ajuda a entender os impactos desse componente internacional na eleição brasileira. Afinal, convergência ideológica e alguma vassalagem política se manifestam em camadas que ajudam a explicar não só o momento atual, mas, sobretudo, o futuro da política nacional. É essa distinção — entre incentivo estrutural e ingerência comprovada — que deve orientar a leitura do caso brasileiro.

Em 2 de junho de 2026, numa audiência no Comitê de Relações Exteriores do Senado americano, Rubio classificou o Brasil como país “não amigável” aos Estados Unidos, ao lado de Cuba, Venezuela, Nicarágua e, em menor grau, a Colômbia — isso antes da virada eleitoral colombiana. Rubio associou a classificação ao ciclo eleitoral brasileiro e mencionou, na mesma leva de declarações, a intenção de tratar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras e uma sobretaxa de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros. Não é uma leitura isolada: desde julho de 2025 a relação bilateral vive uma sequência de tarifas — a ameaça inicial de 50% em julho, a taxação de 50% efetivamente imposta em agosto, associada explicitamente por Trump ao julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo, a revisão forçada pela Suprema Corte americana em fevereiro de 2026, que invalidou o uso da IEEPA como base legal, e a substituição por uma tarifa global de 10% somada à sobretaxa setorial de 25% já citada acima. O resultado prático: o comércio bilateral caiu aproximadamente 12,8% na comparação entre o primeiro semestre de 2025 e o de 2026.

O caso das sanções contra o ministro Alexandre de Moraes é didático para compreender o nível de instabilidade da relação política bilateral. Enquadrado na Lei Magnitsky em julho de 2025 por conduzir o processo que condenou Jair Bolsonaro, Moraes teve as sanções suspensas em dezembro, quando Trump e Lula abriram um canal de negociação direta. A aproximação não vingou: Trump declarou publicamente que “não se importa” com Lula, a quem chamou de “volátil”. Em decorrência desse resfriamento do diálogo presidencial, crescem os relatos — ou melhor, a indústria de boatos — de que a Casa Branca avalia reativar as sanções contra Moraes em resposta a decisões judiciais que afetam Jair e Flávio Bolsonaro; até o fechamento desta coluna, sem confirmação oficial.

Do lado brasileiro, a resposta de Lula tem sido pública e com fins eleitorais. Em artigo de opinião no Washington Post, publicado em 26 de julho de 2026, o presidente classificou as tarifas de Trump como um “erro estratégico” — não apenas para o Brasil, argumentou, mas sobretudo para a própria economia americana e seus cidadãos, no longo prazo. No dia seguinte, no mesmo tom, afirmou que “ninguém vai nos derrotar através de mentiras”.

É nesse tabuleiro que a candidatura de Flávio Bolsonaro precisa ser situada. Lançada em dezembro de 2025, formalizada na CPAC de Dallas em março — o senador afirmou ter aceitado a missão a pedido do próprio pai, hoje em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe — e oficializada pelo PL em julho, ela enfrenta resistência dentro da própria direita.

O ponto é que, ainda que não haja endosso formal de Washington ao nome de Flávio Bolsonaro, existe uma arquitetura de incentivos que pressiona a atual administração brasileira, sem qualquer sinalização concreta de que o resultado seria diferente sob uma administração bolsonarista.

Em campanha, Flávio assume retórica semelhante à de outros vencedores de direita na região: a de que a proximidade ideológica e pessoal com Trump, por si só, resolveria dilemas de toda ordem. Ainda que não haja garantia de que o apoio de Trump ou de Milei se converta em votos, o constrangimento que ambos impõem a um Planalto pressionado em múltiplas frentes parece ter utilidade numa eleição complexa e competitiva.

Nesse sentido, o tabuleiro tem duas camadas, e a leitura de ambas remete a reminiscências da Guerra Fria. A primeira é simbólica: a eventual entrada do maior país da América do Sul no arco de influência trumpista — ou “da liberdade”, na retórica local — fecharia, para Washington, o mapa de um hemisfério majoritariamente alinhado, dando concretude ao discurso de escudo das Américas. A segunda, vinculada à primeira, é geopolítica: manifestar-se-ia na possibilidade de o Brasil, hipoteticamente ao lado da Argentina, rejeitar projetos como o Mercosul e os Brics. Ambos, não por acaso, já são lidos, interna e externamente, como moeda de troca por alívio tarifário.

Esse quadro, com elementos hipotéticos e casos práticos, expõe uma fragilidade que antecede Lula e Flávio: a sociedade brasileira nunca fez, com profundidade, o debate sobre que tipo de inserção internacional deseja e sobre como essa escolha se conecta às políticas públicas domésticas. Vale o reparo: não há aqui crítica ao trabalho da burocracia que opera a política externa, apenas o registro de que a sociedade nacional se acostumou a enxergar o mundo como algo a alguns anos-luz do cotidiano.

Isso se traduz em dois elementos: o primeiro é a surpresa de setores do empresariado, perceptível em declarações públicas ao longo de 2025 e 2026, ainda que sem quantificação em pesquisa disponível, diante do fato de que uma sanção econômica possa ter motivação primariamente política; o pressuposto implícito era que comércio e ideologia corriam em trilhos separados, pressuposto que a Doutrina Donroe desfez sem cerimônia. O segundo é a dificuldade de parte da classe política em calibrar resposta: entre a narrativa soberanista de Lula, que aposta no desgaste de Trump como ativo eleitoral, e o alinhamento de setores bolsonaristas, falta um terceiro caminho que discuta interesse nacional sem se reduzir a personalismo.

O Brasil se habituou a tratar crise internacional como fenômeno remoto, algo que acontece muito, muito longe. E esse período de desconexão com o mundo parece terminar a fórceps, na medida em que a política externa da principal potência do hemisfério passa a operar como pressão direta e cotidiana. A dinâmica de sanções, enquadramento diplomático e constrangimento político condiciona escolhas governamentais e tende a fazer preço na economia. Com isso, a pergunta que caberá ao eleitor em outubro deixará de ser apenas quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos, e passará a ser também como o país aceita ser lido — e, eventualmente, constrangido — por Washington e pela vizinhança.



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