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Cascavel,29/07/2026

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Opinião

Começa mais um ano par da era Bolsonaro

O filme recente das estratégias eleitorais bolsonaristas desde 2018 Por Ana Carolina Evangelista*


Começa mais um ano par da era Bolsonaro

O filme recente das estratégias eleitorais bolsonaristas desde 2018

Por Ana Carolina Evangelista*

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Fotos: Mauro Pimentel e Vitor Souza/AFP

O jogo de 2026 oficialmente acabou de começar. E quais foram as apostas e táticas de um novo campo político que passou a deixar a direita brasileira tão desorientada?

Desde 2018, o bolsonarismo passou por quatro ciclos eleitorais, dois nacionais e dois municipais, mantendo um mosaico comum relativamente estável de estratégias que passa pela mobilização de moralidades, exploração de identidades religiosas e nacionalistas e sentimentos anti-sistema político, em geral, e anti-esquerda, em específico. Mas o que mudou desde então? Por que mudou? Como o campo que desestabilizou a direita tradicional na política brasileira se adaptou à conjuntura desde que surgiu?

Uma breve retrospectiva sobre os quatro últimos ciclos eleitorais em sequência pode nos ajudar a identificar mudanças e compreender o momento atual.

A eleição presidencial de 2018 colocou em xeque algumas das principais variáveis que costumávamos considerar para analisar pleitos majoritários. O famoso tempo de TV e o financiamento de campanha não foram os elementos clássicos que turbinaram o sucesso da candidatura eleita, tampouco o êxito de muitos de seus apadrinhados nos estados Brasil afora. Aquele foi o ano do rompimento com as variáveis clássicas de análise do sistema eleitoral.

A então primeira campanha bolsonarista à presidência apostou no simbólico e na mobilização de anseios e demandas da população brasileira que vivia muitas crises simultâneas: descrença com a política, crise econômica pós governos Dilma 1 e 2 e de segurança pública e violência urbana que por décadas se aprofundar no Brasil. A desesperança com as instituições políticas e seus tomadores de decisão ainda não atingiam o então deputado do baixo clero, Jair Bolsonaro, que conseguia se afastar mesmo sendo um parlamentar de muitos mandatos. A crise moral da política — regada a escândalos de corrupção e a cauda longa do debate público dominado pela Operação Lava Jato nos quatros anos anteriores — não respingou no candidato que prometia ser uma “alternativa ao sistema”.

Ao mesmo tempo, o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” demarcou um posicionamento religioso explícito incomum para um presidente eleito pelo voto popular, assim como o apoio de cerca de 70% dos votos dentro de um mesmo segmento social crescente na sociedade, o evangélico. Mas a centralidade da religião naquele pleito não começa ali, como já abordei aqui neste espaço muitas vezes. Era uma pauta, e uma estratégia de marketing eleitoral, que vinha ganhando espaço desde 2010, e em 2018 atingiu um patamar particular. Segundo pesquisa Ibope encomendada antes da disputa de primeiro turno em 2018, 79% dos brasileiros queriam um presidente que acreditasse em Deus e 30% desejavam que fosse da mesma religião que a sua.

Esses números pouco devem ter mudado de lá pra cá. Mas os agentes políticos que naquele momento se apresentavam como os “representantes desse Brasil” já assumiram cargos de visibilidade, tomaram decisões, fizeram escolhas políticas e morais que desde então mexeram um pouco na percepção popular de que são eles mesmo os melhores promotores desses valores na política.

O Brasil que chegava às urnas em 2018 era um dos países com os maiores índices de homicídios do mundo, com o maior índice de desemprego médio da história recente e com forte sensação de insegurança moral.

Mapeamentos do Instituto de Estudos da Religião (ISER) identificaram que evangélicos, por exemplo, votaram nos diferentes estados da federação e para presidente a partir de pautas que se relacionavam com a forma pela qual as crises econômica e de segurança pública afetavam suas vidas, e não apenas por orientação religiosa.

Os eixos que mobilizavam mais fortemente essa base eram os mesmos das candidaturas não religiosas de espectro conservador: defesa da moral, defesa da família, controle e ordem no campo da segurança pública, permeadas por um forte posicionamento antiesquerda. Essa é uma estratégia que se manteria no campo bolsonarista em 2020 e 2022, com tentativas de resgate em 2026.

Em entrevistas com candidatos evangélicos de diferentes partidos, observamos já naquele momento uma colagem entre identidade evangélica e a afirmação de uma “limpeza”, no sentido de se apresentar como alternativa ao sistema político associado à corrupção. Essa articulação entre identidade religiosa e capital moral foi intensificada nas retas finais de campanha quando lideranças religiosas de base, e mais midiáticas, investiam na estratégia de notícias falsas direcionadas ao mal que representaria a esquerda político-partidária no país e seu representantes, “eles não poderiam continuar”. Acontecia antes de 2018, fortaleceu-se naquele ano e seguiu como tática em 2020 e 2022.

Em termos de base, Bolsonaro avançou, portanto, em parcelas do eleitorado que até então eram importantes bases petistas: os mais jovens, de escolaridade baixa, empatando entre mulheres e católicos e vencendo em todos os estados do Sudeste.

Em síntese, 2018 não foi apenas o ciclo do outsider que rompeu variáveis clássicas do sistema eleitoral. Foi também o momento em que uma matriz político-religiosa conservadora, incubada desde 2010, encontrou um candidato capaz de articular uma retórica de retorno a um passado que se perdeu, e de identidades, mais conservadora e mais religiosa, de afirmação de limpeza moral do país e da política.

Já 2020 foi o ano do bolsonarismo já como pauta e campo político, não apenas como uma única figura política. Nas eleições municipais seguintes, a continuidade mais relevante não foi a presença de Bolsonaro como cabo eleitoral, mas a permanência e a aposta dobrada nas pautas conservadoras que o elegeram. Nas diversas campanhas desse campo político pelo pelo país vimos mais Damares e menos Bolsonaro. A então ministra dos Direitos Humanos, e hoje Senadora da República, tornou-se uma espécie de símbolo das pautas desse campo.

Na disputa pela reeleição, em 2022, a campanha apostou, mais uma vez, no simbólico e na mobilização de medos. Desta vez, porém, isso não estava atrelado a qualquer possibilidade de melhora nas condições de vida das pessoas, tampouco conseguia se distanciar das origens dessas crises e da responsabilidade sobre elas, uma vez que o país saía de uma gestão desastrosa da pandemia de covid-19 e já tinha passado por quatros anos de um gestor “outsider político” que não tinha conseguido entregar as principais demandas da população.

O ano de 2022 foi da estratégia eleitoral pautadas pelo símbolos e medos, mas sem entregas concretas.

Naquele mesmo ano, o ato de celebração do Sete de Setembro, que depois serviria como um dos elementos comprobatórios para a aprovação da inelegibilidade de Bolsonaro, apelou para a família, o militarismo e discursos de ódio. A convenção partidária reafirmou o apelo ao Brasil do agro, à ordem, ao controle e à identidade cristã.

A candidatura foi lançada com o coro “Eu juro dar minha vida pela liberdade” e, em seguida, Michelle, com o dedo apontando para o céu, completou: “Ele é um escolhido de Deus e tem o coração puro”. Era um ato sertanejo gospel, com políticos condenados pela Justiça no palanque, símbolos, pânicos e medos — sem menções às principais aflições da maioria dos brasileiros.

O perfil do eleitorado, àquela altura, estava bastante definido. Lula havia retomado com folga o eleitorado jovem, feminino, católico, e, em alguns segmentos, invertido preferências registradas em ciclos anteriores. Bolsonaro era mais forte entre evangélicos e empatava nos grupos de renda e escolaridade altas. Entre indecisos, o não cumprimento das promessas de campanha era marcante. Tratava-se de um presidente em exercício sendo avaliado.

Ao mesmo tempo, a corrupção ainda pesava muito entre as preocupações dos eleitores e isso era acionado pela candidatura bolsonarista a todo momento como pânico moral e como uma marca atribuída à esquerda, ou o temor do retorno dela. Esse elemento é importante porque ele segue sendo valioso para o eleitorado e não pode ser tão massivamente mobilizado pela candidatura bolsonarista agora em 2026. O teto é de vidro e, aos olhos do eleitor, esse teto frágil não é apenas da esquerda.

Nesse enredo todo, chegamos a 2026.

Se em 2022 o apelo simbólico-religioso de certa forma não teve o mesmo peso da ausência de entrega material, em 2026 o bolsonarismo opera numa morfologia distinta. O centro de gravidade se desloca do capitão para a família. O voto na figura dá lugar à mobilização de base. O medo como estratégia divide espaço com o conflito como dispositivo de manutenção da audiência e engajamento eleitoral.

Já sabemos que, num primeiro momento, Flávio Bolsonaro herda quase automaticamente as intenções de voto do pai. Mas também sabemos que a manutenção dessa base não é certa. Seja pela diferença de perfil comunicacional e de apelo político entre pai e filho, seja pelo escândalo do Banco Master que explicitou o teto que já era de vidro, seja pelo peso da concorrência — um presidente com mandato, entregas sociais e econômicas para a população e máquina estatal de campanha.

Nesse cenário, a estratégia bolsonarista é de seguir dobrando a aposta na mobilização de símbolos e medos e na manutenção da atenção em torno de si a partir de fatos e eventos que reforcem para sua base seus valores e sua missão maior de combater o grande mal que é a esquerda. Mesmo em contextos turbulentos, como a crise familiar entre Michelle e Flávio e as ligações do candidato com o caso Master, a aposta está na mobilização constante de afetos e, consequentemente, de votos. Pode soar contraditório que a família lucre da própria exposição de rachaduras externas e internas, mas essa dinâmica integra parte do modus operandi de tentativa e erro para permanecer em evidência e reativando os valores caros a seus apoiadores.

Nesses quatro ciclos, o bolsonarismo, mesmo com o seu líder maior condenado e inelegível, desde 2020 já opera com capilaridade e diversidade de atores sociais e políticos que simbolizam suas pautas e com o crescimento constante de vereadores, prefeitos, deputados estaduais, e federais eleitos nos últimos oito anos. E as inflexões são tão relevantes quanto as permanências.


*Ana Carolina Evangelista é cientista política com mestrado em relações internacionais pela PUC-SP e em gestão pública pela FGV-SP. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Faz cobertura eleitoral desde 2018 com colunas na 'piauí' e no 'UOL'.



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