Juliano Gazola
O Brasil perdeu um jogo. Você perde uma guerra todo dia
Chorou pela eliminação. Não chorou pela metade do ano que passa trabalhando só para sustentar um Estado que nunca presta contas.
Chorou pela eliminação. Não chorou pelametade do ano que passa trabalhando só para sustentar um Estado que nuncapresta contas. E ainda assim essa não é nem a sua pior derrota.
ACopa acabou e o país entrou de luto por uma eliminação que não tira um centavodo bolso de ninguém nem acrescenta um dia à vida de ninguém. No mesmo mês, semluto nenhum, o brasileiro seguiu entregando quase metade do que produz paramanter uma máquina pública que devolve, em troca, hospital sem leito, escolasem professor e rodovia sem asfalto. Se a métrica for indignação por minuto, aSeleção perde para o Fisco todos os anos — e ainda assim é o Fisco que saiimpune.
Issojá seria grave sozinho. Mas é só o segundo andar de uma derrota maior, maisantiga, que nenhuma CPI investiga.
Porqueantes de um governo confiscar o seu dinheiro, alguma coisa dentro de você jáhavia abdicado do direito de administrá-lo com prioridade. O Estado não roubaatenção de quem já a organizou. Rouba de quem a deixou solta, disponível,correndo atrás do próximo assunto barulhento. Um povo que discute escalação commais rigor do que discute orçamento público não foi enganado por um governoesperto — foi um governo esperto o suficiente para explorar um povo que jáhavia decidido, sozinho, que impostos são assunto chato e futebol é assuntosério.
Existeuma antiga advertência sobre não amar o mundo nem o que nele existe — o prazerimediato, o que se vê e se cobiça, o orgulho de ter mais — porque tudo issopassa, e passa levando junto quem nele depositou a vida inteira. Trocando emmiúdos: o vazio de domingo sempre vai exigir um novo estímulo, e o Estado sabefornecer estímulo com a mesma competência com que fornece boletos.
Hátambém uma frase de um homem que perdeu quase tudo o que possuía e ainda assimescreveu sobre avançar: esquecer o que fica para trás e seguir para o que estáà frente. Nenhum país progride enquanto sua população discute, com paixão definal de Copa, um placar que já terminou — e trata com indiferença desegunda-feira o placar que ainda está em andamento: o do próprio patrimônio, daprópria liberdade, do próprio futuro.
Eexiste um alerta mais antigo que todos, sobre não se gloriar na própriasabedoria, na própria força ou na própria riqueza, porque nenhuma delas resisteao teste do tempo nem ao teste do imposto de renda. O que resiste é outra coisa— e essa outra coisa nunca vai aparecer numa súmula de jogo, nem numa nota derecolhimento tributário.
Vocênão perdeu a Copa. O Brasil perdeu. Você só teve, por alguns dias, a prova deque sabe se indignar com precisão — só escolheu mal o alvo.
Odia em que essa precisão for redirecionada é o dia em que este país deixa deperder duas vezes.
Governara própria atenção é o primeiro ato de liderança que existe. Antes de liderarqualquer equipe, lidere isso.
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