Padre Reginaldo Manzotti
O perdão deve ser gratuito
Filhos e filhas,
“Deus amou de tal forma o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que n’Ele creia não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).
Nós amamos porque Deus nos amou primeiro (cf. 1Jo 4,19). Somos constantemente perdoados por Deus, que nos amou primeiro. E, porque somos perdoados e amados por Deus, devemos também perdoar.
E qual a medida do perdão? Pedro chega para Jesus e faz essa pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar?” (cf. Mt 18,21). E é impressionante que Pedro faz a pergunta e nem espera resposta, ele mesmo sugere: “Até sete vezes?” (Mt 18,19,21). Como ele foi afobado na resposta e mostrou que ele não compreendeu o mestre, Jesus explicou: “Oh! Pedro! Não sete, mas setenta vezes sete, isto é, sempre!" (cf. Mt 18,22).
É importante perceber isso, pois se trata de perdoar muitas vezes a mesma pessoa, às vezes pelos mesmos erros, pelos mesmos equívocos. Isso exige tolerância, isso exige misericórdia. Mas também pede força de vontade e empenho, porque, na maioria das vezes, trata-se de pessoas mais próximas. Primeiro, porque as atitudes de outras pessoas não nos causam tanto sofrimento e decepção quanto aquelas de quem amamos e, por isso, não esperamos receber um tratamento hostil ou deliberadamente prejudicial. Em segundo lugar, porque, muitas vezes, nesses casos, o perdão exige reconstruir a confiança, a convivência e o próprio relacionamento.
Sem querer ser egoísta ou incentivar o egoísmo, ao perdoar não devemos nos preocupar se o outro vai mudar. Não devemos nos preocupar com os efeitos que o nosso perdão vai provocar, se trará a pessoa de volta, se restaurará a amizade ou se ela também irá nos perdoar. A reconciliação é uma consequência do perdão que nem sempre acontece. O amor, para ser vivido, precisa ser recíproco; o perdão pode ser unilateral. Isso não significa que o outro precise nos perdoar, significa que nós vamos perdoar. É diferente. O perdão deve ser gratuito, unilateral. Não se devem impor condições para perdoar. Deus não age assim conosco; por mais egoístas, miseráveis e pecadores que sejamos, Ele sempre nos perdoa.
O perdão deve acontecer, principalmente por se tratar de um preceito de Nosso Senhor. Sejamos sinceros: ao perdoar, não agimos apenas movidos por amor, complacência ou benevolência; perdoamos porque foi isso que Jesus nos pediu. Quem se fecha à graça do perdão fica preso ao passado, à dor, à mágoa, à raiva e, às vezes, até ao desejo de vingança, sentimentos tóxicos que acabam bloqueando o futuro. Além disso, podem provocar doenças psicossomáticas, pois diminuem a imunidade do organismo e abrem espaço para enfermidades oportunistas.
Há também aqueles que encontram dificuldade para perdoar, porque ainda não compreenderam que perdoar não significa desculpar ou minimizar a ofensa sofrida e fingir que nada aconteceu. Agir assim é mascarar o problema, como colocar um curativo sobre uma ferida que ainda está suja. Ela pode até parecer cicatrizada, mas, por baixo da casca, a infecção permanece. Insisto: a ferida precisa ser limpa, precisa sangrar, para que possa cicatrizar.
Desculpar não é perdoar, e o perdão só cura quando reconhecemos a dor, conversamos sobre a ofensa e, mesmo admitindo ao outro que ele agiu mal e nos feriu, escolhemos não alimentar a tristeza, não guardar ressentimentos e, em Deus, perdoamos suas fraquezas e limitações.
Pode parecer difícil, mas, se fizermos de Jesus a nossa rocha firme, teremos a graça de conseguir perdoar e também de sermos perdoados.
Deus abençoe,
Padre Reginaldo Manzotti








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